Mórbidas fantasias

Só queria que fosses embora!
Me traz lembranças daquilo que não tenho.
(Talvez, nunca tenha tido)
E a planejar o que não farei me mantenho.

Pingos rubros e profanos, carregados de vaidade
inundam meu ser, trazendo consigo o silêncio,
soberba, descrença, covardia e saudade.

Não queria que fosses embora!
Me traz esperanças daquilo que preciso
(Talvez, agora, tudo faça sentido)
A floresta estampada em seu vestido,
O discurso amoroso ao meu ouvido,
O alarido nos olhos e o sorriso.

O brinde insosso e gelado
anuncia o fel das noites vazias
e aberrações sombrias.
Não me abandone nos desvãos
das letras e mórbidas fantasias!

(Luiz Oliveira, Sumaré, 03 de outubro)

Eternos retornos

1.

Já contamos horas, minutos e segundos.

Fomos ao céu e mergulhamos em abismos profundos,

Seguros de que nada, neste e em outros mundos

Seria capaz de abreviar solo tão fértil e fecundo.

2.

Em seu coração há segredos

que não quero sejam revelados:

Eles são seus.

Em meu coração tem mistérios

e os mantenho tão teus…

3.

Mistérios, medos e segredos

Que escondem desejos,

Que rebentam entre abraços e beijos,

Mas que voltam sempre

para recônditos cantos vazios,

plenos de potencialidades,

neste vai e vem eterno…

4.

Nas pilhas de canções e poesias

contamos e cantamos as horas,

os minutos e segundos

e nos perdemos no correr dos dias.

5.

Como os primeiros raios de luz das manhãs

no instante em que nasce o sol,

no instante em que vos vi

senti o calor da tua alma

se alojando em mim,

viajando pelas minhas veias

afugentando dores e cansaço,

renovando malfadada vida

de desencantos e ilusões.

6.

Ainda contamos horas, minutos e segundos

Nada vai abreviar os instantes eternos.

Constantes retornos, eternos retornos.

Não foi por acaso, não foi o caso.

Breve e para sempre, unos seremos.

(Luiz Oliveira)

Versos, prosas, poesias

1.

Ela estava lá, sempre esteve a me esperar.

Passe por mim, me possua, insinuava.

Não gritava, não gemia.

Atado, qual Odisseu, aos seus encantos resistia.

2.

Via morte e nada havia,

Nada ouvia no exílio forçado.

A correr de ti passei os dias,

Sem saber que existias

E que eras sopro divino, poesia.

Queria a perfeição de Bilac,

Ainda que em cantonês pronunciada;

As sílabas de Camões, milimetradas,

Mas em lugar de Raquel, amava Lia.

3.

E você a passar por mim, sedutora,

Mambembe, invisível, a me cortejar:

Passe por mim, me possua!

Gritava e gemia seu canto mudo.

4.

Sorriso provocante havia,

Sua boca tonitruante dizia:

Passe por mim, me possua,

Nua, claudicante, pedia.

5.

O martelar dos teus suspiros

Chegou-me aos ouvidos, um dia,

E, vencido, me deixei levar,

Fiz a travessia.

6.

Nada mais quero na vida,

Tenho tudo que preciso,

Tropeços, noites inteiras e dias,

Pedras, chuva fina que incomoda,

Versos, prosas, poesias.

Sumaré, 16/05/2020

Luiz Oliveira (Publicado na Revista Travessias Literárias)

A moça, o espelho e o ladrão

Ele apareceu do nada, sorrateiro,

Deslizando pelo tapete imponente,

Menino ousado e maneiro,

Sentou-se, sem pressa, em minha frente.

A moça incauta nem sonhava

Com o bilhete matreiro.

Vez em quando parava e me olhava,

Vendo a mulher em mim refletida,

Deitada, em sono profundo,

Entre lençóis de cetim, protegida,

A moça sequer sonhava

Com o bilhete fecundo.

“Não tenhas medo, meu encanto,

Te amo na penumbra

Mais que à luz do dia;

Amor breve, é verdade,

Efêmero, como os grandes diriam.”

“Não pertenço a essa lavra,

Não sou santo, nem poderia,

Ao contrário, sou vagabundo,

Que no vai e vem dos dias

Conserto o desconcerto do mundo”

Como um gato, de passo leve,

Deixa a missiva junto ao chão:

“Não sinta saudades, volto logo,

Verás, um dia, não foi em vão”.

A moça se encantou

Com o bilhete do ladrão.

Diante de mim fica tudo transparente;

Vaidades, vilezas e confusão,

Reflexos da alma humana,

Essa mixórdia em profusão.

A moça ficou nervosa

Com o bilhete do ladrão.

Há quem não se reconheça,

Num átimo de presunção.

Se perturba, se constrange,

Mas não era esse o caso não.

A moça ficou dengosa

Com o bilhete do ladrão.

(Inspirado na história do bandido “Pé de Veludo”, de Marília/SP)

Texto publicado na Revista Travessias Literárias, 3ª edição

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios?

Sempre fico pensando a respeito do título de um livro para ver se há coerência ou não com o seu conteúdo. Ao longo da leitura, além de observar detalhes básicos, como se narrado em primeira pessoa ou terceira, me coloco dentro do texto e coloco outros e outras e vou enchendo a sacola com minhas percepções e emoções.

E as emoções são muitas. Há daquelas que sequer cuidamos existir; daquelas que simplesmente sente-se, que intuímos, mas que não se consegue saber direito a origem nem a motivação. Nos comove, empolga e excita, sem dar o ar da graça, nem dizer a que veio.

Li “Gente Pobre” e fui dar uma olhada na crítica ― a do povo leitor, não das e dos críticos literários ― e parecia uma unanimidade que a obra faz chorar. Terminei, no entanto, e fiquei frustrado, afinal por que não chorei? Evidente que é um livro excepcional, obra-prima de Dostoiévski, mas…

Em compensação molhei as páginas do “O Que Ela Sussurra”, na cena da fábrica de costura, que não darei detalhes para evitar spoiler. E até compreendo o porquê ― eu fico puto com injustiças. Me lembro ter chorado também em “Cisnes Selvagens”, na cena da carta que o pai envia à filha (autora do livro) pedindo desculpas por ter acreditado no ditador Mau Tsé-Tung. Chorei também em uma ou duas passagens dos “Pássaros Feridos”, um dramalhão programado para este fim, fazer chorar.

Encarei a leitura do livro “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino, com desconfiança, apesar de achar muito atrativo o título e a capa. Ao final da leitura fui positivamente surpreendido.

A história até que é simples. Um fotógrafo experiente (Cauby ― sim, igual ao cantor) se apaixona por uma fotógrafa amadora (Lavínia), casada com um pastor; linda, deslumbrante, sedutora, com dupla personalidade, ex-garota de programa que também se apaixona por Cauby. Em resumo uma bela história de amor eivada de uma realidade cáustica e incômoda. Tipo “A vida como ela é”, levada ao extremo, mas sem perder a ternura.

Todos os personagens são verossímeis. O lugar onde se passa a história, interior do Pará, em meio a uma guerra iminente entre garimpeiros e mineradoras, dá o tom da narrativa. Lugar onde assassino de aluguel tem princípios e a profissão merece respeito. E não respeita não, pra ver! Lugar para onde vai gente de todas as partes do país em busca de riquezas e oportunidades.

Cauby é, antes de tudo, um intelectual, fotógrafo experiente com passagens em revistas e jornais de projeção nacional e internacional. Conhece diversos países, e gosta muito de um filósofo (Benjamin Schianberg) cujas teorias a respeito do amor são um tanto heterodoxas; autor de frases como “O amor é sexualmente transmissível”, e outras tantas que, ao final confirmam a experiência amorosa dos personagens principais.

O livro nos faz refletir sobre o amor, essa coisa que pega na gente e não larga, que a gente não sabe como nem quando chega e que nos transforma em amador e amado. O título do livro e o próprio livro falam disso. Desse amor inconsequente que nos leva a cometer as piores loucuras, que nos faz ignorar todos os sinais da razão nos alertando para perigos iminentes, fatídicos, mortais e irreversíveis.

O amor, esse carrasco e algoz, não tem fim. É o fim em si mesmo. Palavras são incapazes de o definir. Escrevemos em lenços perfumados, nos guardanapos de papel, em árvores frondosas, muros e azulejos. Lançamos essências nas páginas de poemas que achamos falar coisas sobre nós e os enviamos pelo correio. Sussurra-se 300 poemas, como fez a mulher de Óssip Mandelstam, para preservar a memória do seu amado, morto pelo regime Stalinista.

Mas, às vezes, ficamos calados(as) ― e o silêncio guarda uma infinidade de palavras ― e ainda assim amamos profundamente. Esse é daquele amor que dói, que machuca, que aperta o peito e que curte-se sozinho ― somos até capazes de amar o não lembrado, como Lavínia.

O amor de Cauby e Lavínia desperta ao se deparar com as coisas mais singelas, lúdicas ou sádicas, que empurra as lágrimas sem a gente saber bem por que, que nos faz revirar papéis, pinturas e escritos antigos e notar que se fosse escrever algo para a amada escreveria exatamente o que foi escrito na dedicatória do livro que comprou naquela livraria que já não existe mais:

“Me parece interessante as coincidências que amiúde nos deparamos. ‘Os Nossos Antepassados’ é uma ficção real, como tudo que é real não passa de ficção (…) Não teria sentido minha vida sem ter você comigo e a natureza, sábia como ela é, conspirou a nosso favor e só poderia terminar assim, ou melhor, não há término, há ciclos. E em cada ciclo me sinto mais seu e você mais minha.

“E os nossos antepassados? São lembranças que vem à tona e que não vem. O importante mesmo é o presente. E o presente nos brinda com um amor infinito. Um amor grandiloquente; um amor sincero, puro, explosivo. Um amor assim nosso, diferente de tudo o que se falou sobre o amor. Nós temos um amor que nenhum poeta conhece, a não ser o seu poeta de plantão a consumir os dias sem se preocupar em definir como e qual a razão de tão grande amor. Vivê-lo é melhor que tudo. Viver em você é tudo de bom.”

Não sei se receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Sei que seus lábios são lindos e que as notícias são trágicas em sua essência e que o livro de Marçal Aquino vale a pena.

LC

DIA DO JORNALISTA

Topei com o Jornalismo.
Queria ter feito Letras ou Filosofia.

Mas topei com o Jornalismo.

Topei com uma classe de quase 100 alunos, na PUC-Campinas.

Topei encarar o Jornalismo que não conhecia.

Topei com diversos professores e professoras apaixonados. Uns radicais chiques, outros nem tanto. Uns com suas réguas mostrando a diagramação de jornais em paicas. Outros com suas câmeras analógicas e câmaras escuras para revelação de fotos em PB.

Haviam aqueles e aquelas que eram escritores, bateristas, torcedores fanáticos, repórteres, críticos de arte, padres e freiras, filósofas, educadores e educadoras, de direita e de esquerda, de centro, mas todos centrados em nos passar o que de melhor havia em suas experiências anteriores e atuais.

Eram todos Jornalistas e topei com eles!

De revistas, de jornal, de televisão e de rádio e da recém chegada Internet. Haviam também aqueles do “mercado”. No martelar das máquinas de escrever Olivetti ou Remington, esses mestres se esmeravam em nos tornar melhores pessoas, melhores alunos e melhores futuros jornalistas.

Topei com a ética no Jornalismo, com os cientistas da comunicação, com as angústias e alegrias de ser Jornalista no Brasil.

Neste dia do jornalista todo meu apreço aos professores que tive na PUC-Campinas. E estendo este apreço e respeito a todos os meus colegas com quem convivo e convivi ao longo dos anos como profissional de Comunicação Social.

Topo e topei com o jornalismo!

imagem: pixabay

LC

Estive a te procurar

Estive a te procurar!

Queria-te perfeita, uníssona, ímpar.

Resumo de todas as coisas

Essência do não dito, exemplar.

Será que também me procuras?

E ficamos a nos procurar

e se esquivas, apareces travestida,

e assim, despertas medos e pesar?

Se me enganas, engano e confundo

“Era para mim, falavas de nós?”

Sim, era de nós, era sobre nós, sempre será

Te quero perto, ao alcance da minha pena

para que possa definir com precisão minhas penas.

LC

Já passa do meio dia

“Já era meio dia e passamos toda a manhã juntos”. A frase anterior me ocorreu ao longo do dia. O que escreveria que retratasse algo importante sobre a minha vida atual? Passou-me ligeiro o enigma da esfinge. Sequer acompanhei de tão rápido. Depois percebi se tratar não do enigma, mas da resposta certeira de Édipo que o levaria a cumprir o destino fatal.

Pensei também no livro Cem Anos de Solidão que estou lendo e já passei da metade, com seus personagens com nomes parecidos, personagens marcantes, estranhos, fortes, enigmáticos, amorosos, iguais e tão diferentes. Quais personagens me representariam? A essa altura do livro nada foi salvo de tudo que escrevera o coronel Aureliano, com quem naturalmente faria a ligação direta pela atividade literária e não de guerrilha.

Todo escritor ou escritor/personagem e suas dificuldades se parecem comigo. Pelo menos é o que eu penso. Foi assim no livro do Chico Buarque, Essa Gente; no de Mario Levrero, O Romance Luminoso e Pedro Mairal em A Uruguaia para ficar nestes poucos exemplos. De certa forma são personagens mal sucedidos ainda que haja uma tentativa de salvá-los com as mais variadas justificativas e recursos estilísticos.

Me senti Lima Barreto em O Triste Visionário de Lilia Moritz Schwarcz. E este livro coloco separado por ser uma biografia e sendo assim uma aproximação do que foi a vida desse escritor problemático, altivo e haja adjetivos positivos e negativos para retratá-lo. No fundo, o considero um sobrevivente. Um sobrevivente escritor.

A ficção é bastante diferente da realidade, ainda que tenhamos tragédias, desencontros e destinos fatais. Escrever é para mim um reencontro comigo mesmo e o meu destino que, espero, não seja fatal, mas reconfortante, singelo e puro, fruto de um desejo que me foi negado.

“Qual o seu grande sonho ou uma coisa que deseja realizar”, me pergunta o homem que pretende me contratar. “Quero ser escritor”, respondo. E ele ficou me olhando por alguns segundos, pensando.

E já passa de meio dia. Mas já tenho a primeira frase do meu livro!

LC

(Desafio: Texto Livre para o curso de Letras da Univesp. A ideia era escrever livremente sobre qualquer assunto)