Verdades, mentiras e falsas percepções da realidade

Perto de onde trabalho tem um estabelecimento comercial que me favorece na hora em que o desespero por café e a fome me consomem. O local, por fora, é muito chamativo. Por dentro, não é lá essas coisas. Mais parece um boteco mal frequentado e sujo.

Era um dia seco e claro, desses em que o cheiro de tudo incomoda, em que a respiração fica difícil e o sufoco faz pensar que um colapso é iminente. Cheguei e pedi um café de bule ―não sei como as pessoas conseguem tomar esses cafés de máquinas que a gente fica lembrando dele o resto do dia. Forte demais. Na falta do de bule, sempre peço um “carioca”. Ainda assim é difícil de engolir. Assim como foi difícil engolir o papo de balcão naquele dia.

O sujeito do lado de dentro, aparentemente, o proprietário, falava com um sujeito do lado de fora. E concordavam em tudo e se complementavam, repetiam argumentos, comemoravam vitórias e lamentavam derrotas. Resolvi demorar um pouco mais que o normal.

―Esse STF precisa ser fechado ― dizia o homem grande com tatuagem no braço e jaqueta de motociclista de motoclube. 

―Tudo safado. Viu aquele lá, o tal do Tófolli, o Gilmar e o carequinha lá, que parece o kojack? ―emendava o velho negro de chapéu de palha na cabeça.

―Eu não queria que o Lula tivesse preso, não queria mesmo. Queria é que ele devolvesse os bilhões que ele roubou. Com esse dinheiro o Brasil poderia ser muito diferente.

― Viu o avião do Lulinha? Só existem dois daquele no mundo e ele comprou os dois. E a Ferrari amarela dele, viu? O cara tem dinheiro que não sabe o que fazer com ele. Tudo roubado da Petrobras. Ele não tem só a Friboi não, tem muito mais. Coisas que nunca vamos saber. Um dos mais ricos do mundo esse Lulinha. Laranja do pai, isso sim. Esse negócio do sítio dele e do triplex é balela, é fichinha.

― O presidente não consegue fazer nada. Uma hora é o STF, outra hora é a Globo. Essa mídia está toda contra o “home” que é a nossa salvação, coitado. Levou até uma facada porque queria livrar o Brasil dessa corrupção. Um homem abençoado!

―E aquele Mourão? Um golpista, safado. Se o presidente não tomar cuidado, sei não… Justo agora que o presidente assinou lá o remédio para todo mundo. Um remédio caro que pode ir e pegar em qualquer postinho. Remédio de graça para todo mundo, você viu? Como é bom esse homem!

― Pra mim tinha que fuzilar todos esses caras do contra. Fechar esse Congresso, o STF. Tem que começar do zero.

Nesse ponto, me intrometi na conversa. 

―Mas vocês não acham que fazer isso é perigoso demais? Além disso, a quem interessa um caos instalado em um país como o nosso com tantos problemas sociais e políticos? Vejam o desemprego, por exemplo, com níveis alarmantes! E esse filme a gente já viu em 64 na ditadura militar ―argumentei.

―Que ditadura o quê?! Desemprego?! Foi o PT que acabou com tudo, deixou o país na miséria, junto com esse PMDB. Tudo ladrão! Comunista, nunca mais! Tem que proteger as nossas famílias. No meu tempo a gente cantava o Hino Nacional na escola, não tinha essa pouca-vergonha que a gente vê por aí. Eu votei no Bolsonaro porque ele é honesto, novo na política e não vai se juntar com essa gente corrupta do Congresso. Ditadura? Ah, sabe de nada inocente! Pessoas de bem, não tiveram nenhum problema depois da revolução. Agora, os bandidos, sim. Os comunistas, sim.

― Novo na política? ―perguntei, já nervoso. ―Mas ele foi deputado por 28 anos. Como pode ser novo? Em tantos anos, jamais apresentou um projeto importante. E sobre a ditadura, já viu aquele documentário: “O dia que durou 21 anos”? O documentário mostra claramente que os Estados Unidos estiveram por trás de todos os eventos que antecederam o golpe militar de 64 (e estão de novo por trás dos militares que estão no governo. Planejaram essa história toda do impeachment e da prisão do Lula). O Moro foi instruído pelos americanos, esse juizinho lacaio dos norte-americanos. O Deltan, do Power Point, também. E aquele povo do TRF4, tudo envolvido. 

“Os americanos planejaram todos os passos da ditadura militar desde 62. Nesse tempo, em cada esquina tinha um agente americano. Ensinaram os agentes do DOI-CODI a torturar e matar. E tudo isso, por uma questão geopolítica, por interesse na Amazônia e nas nossas reservas. Por causa da guerra-fria. Está tudo no filme e também no livro “Brasil Nunca Mais”. O Zuenir Ventura escreveu sobre isso, em “1968, o ano que não terminou”. E tem mais um tantão de filmes, documentários e livros sobre o tema. Sem contar os zilhões de estudos acadêmicos a respeito.”

“E esse Bolsonaro passa o tempo todo no Twitter escrevendo abobrinha. Os poucos ministros que pensam ficam desesperados cada vez que o presidente abre a boca. Ele permite que o vereador, filho dele, se envolva em polêmicas o tempo todo. Aliás, o “Carluxo” é o primeiro vereador federal que se tem notícia.”

“E o Queiroz? Cadê o Queiroz? E o Laranjal do PSL, de Pernambuco e de Minas Gerais? E os funcionários fantasmas da famiglia inteira? E os cortes na Educação, pra que isso? E essa reforma da previdência de um trilhão? Vai fazer o quê com esse dinheiro, pagar juros? E o desmatamento, os venenos cancerígenos liberados, as bancadas da bala, da bíblia e rural e suas exigências, um verdadeiro poço sem fundo?”

“O Centrão vai detonar Bolsonaro, vocês vão ver. Escrevam isso. E o Maia não vai ajudar, não. Ele quer ser presidente. Sonha com isso todo dia. O Alcolumbre é despreparado. É outro aliado do governo com uma ficha corrida maior que a do Cunha.”

“Já estão falando de impeachment do Bolsonaro e isso não demora, viu! Presidente ruim, sem projeto. Não levou facada nenhuma. Ele estava com câncer e precisava fazer uma cirurgia. Aproveitou que não queria ir aos debates, porque é mais burro que uma porta e inventou essa história em conluio com a Polícia Federal, com os médicos, com o próprio inocente útil que foi treinado para encenar a tal facada. Quem está pagando os advogados desse Adélio, que tem Bispo no nome, mas não é nada santo?”

“Bolsonaro fica falando de família, mas é separado. Pegou uma mais novinha. Lembram da fala dele sobre o apartamento de Brasília? “Mantenho o apartamento para comer gente”, falou sem pestanejar. Vejam se isso é coisa que se fale?”

“Tudo que o presidente faz é para benefício próprio. Viu a história das multas de trânsito e dos radares? Agora quer liberar geral. E as multas ambientais? Partiu pra cima do pobre homem que aplicou uma multa nele por pescar em local proibido. E o Queiroz estava com ele, mas a Polícia Federal, o Ministério Público, ninguém consegue encontrar esse cara, que dizem ser miliciano. Que era o gestor financeiro do filho senador, na época em que o Flávio era deputado estadual do Rio.”

“E o outro filho, deputado federal? Só fica viajando, colocando boné do Trump e falando asneiras contra mulheres, negros, gays e toda a gente pobre deste país. Viu o que ele disse sobre fechar o Supremo com um cabo e um soldado, que nem precisava de jipe?”

“E a seita olavista que tomou de assalto o Ministério das Relações Exteriores e o MEC?”

“Esse governo nem precisa de oposição. É uma briga lascada entre eles. Militares, olavistas e a famiglia“.

“Enquanto isso, a mídia está em uma posição desconfortável. Apoiou o cara e se arrependeu; apoia a reforma do trilhão, liberal que é, em sua essência, mas detona o presidente diuturnamente. A Folha, o Estadão e a Globo descem a madeira no cara todo dia. Fechado com ele, o Bispo Macedo, o Datena e o Silvio Santos. A Jovem Pan é golpista de carteirinha, mas já perdeu a paciência. O Reinaldo Azevedo, então, nem se fala. A RedeTV também está com ele, esperando algum, uma vez que ele declarou guerra contra a Globo”.

Nesse ponto, meus interlocutores estavam calados. Um limpando o balcão com um pano imundo, o outro, sentado coçando a cabeça e a meia furada. Perguntei quanto devia. De cara fechada e mordendo o beiço, o homem grande cobrou o café. Desejei um bom dia, sem respostas e saí. 

Quase na rua pude ouvir: “Petralha! Comunista! Não sei onde estava com a cabeça que não enfiei um soco na cara dele. Onde se viu uma coisa dessas?”

imagem: freepik

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Alexandre e Luís XIV, pessoas que mudaram a história do mundo

Acabo de ver duas produções que trazem a biografia de dois personagens marcantes da história mundial: Alexander, um longa de quase três horas (2004, disponível na Netflix) e Versailles, série com 30 episódios, disponíveis na GNT (Globosat News Television).

Estranhei a diferença na classificação indicativa por parte das emissoras. A Netflix classificou Versailles (duas temporadas disponíveis) como não adequada para menores de 18 anos; já a GNT a recomendou para maiores de 16 anos. Enfim, essa é uma discussão para outro momento.

Ambas produções mergulham nos pensamentos, desejos, ambições, e sobretudo, nos feitos de Alexandre Magno (Alexandre III) e de Luís XIV, rei da França. Cada um a seu tempo foram figuras controversas e enigmáticas. Para uns, ditadores, absolutistas; para outros, sonhadores, idealistas.

O fato é que os estilos são quase opostos, apesar de as maneiras e os ideais apresentarem semelhanças.Alexandre nasceu na Macedônia e reinou de 336 a.C a 323 a.C. Um reinado curto, mas admirável e surpreendente. Sua formação foi fortemente influenciada pelo filósofo Aristóteles e por sua mãe. Héracles (Hércules para os Romanos) era para ele uma referência de herói. Ele queria ser grande, o maior entre os gregos, pensava em unificar o mundo, libertar os povos de tiranos, superar Héracles. Olímpia, sua mãe, reforçava em Alexandre esse ideal heroico assegurando-lhe que nascera para ser o maior entre todos os Reis, que era filho de Zeus e não de Felipe II, seu marido.

Na prática, Alexandre reinou nos campos de batalhas, conquistou a Pérsia, invadiu a Ásia e criou Alexandrias várias, sendo a mais importante a do Egito, levando a cultura helênica por onde quer que fosse.

Os maiores conflitos entre o general e o seu exército foi uma reação por causa da maneira como Alexandre tratava os vencidos. Invariavelmente, os perdoava, devolvia-lhes terras conquistadas, casava-se com mulheres de tribos “culturalmente inferiores”, segundo a opinião dos soldados macedônios, e ainda incluía os habitantes das novas terras ao seu exército, algo inaceitável pelos guerreiros alexandrinos.

O exército se incomodava ainda porque queria voltar para a Macedônia, usufruir de toda riqueza acumulada nas conquistas e não entendia porque Alexandre era todo inquietude, nada o satisfazia e não dava a mínima para os tesouros provenientes dos saques nas cidades que caíam como dominós sob a espada de Alexandre e seu exército.

Fora isso, a relação entre Alexandre e os seus soldados era horizontal. Discutiam os assuntos militares de igual para igual e não raro, falavam alto, gritavam mesmo uns com os outros. Depois de tudo, se divertiam juntos e venciam todas as batalhas, uma após outra como nenhum outro exército no mundo.

Essa relação amigável entre Alexandre Magno e seus soldados não acontecia em Versailles. Luís XIV governava sem sair de dos seus aposentos, seu porto seguro. Era autoritário, não confiava em ninguém, mantinha amigos e inimigos perto, sob vigia constante. Tinha várias amantes, uma das quais, a esposa do seu único irmão (pelo menos oficialmente), que era homossexual assumido, assim como Alexandre Magno. Apesar disso, ambos se casaram mais de uma vez e cumpriram as “obrigações” de maridos e tiveram filhos.

O exército da França confiava mais em Filipe I, Duque de Orleães, irmão do Rei, que liderou várias batalhas e era mais generoso, compreensivo e que demonstrava gratidão e afeto. Talvez por isso, tenha sido afastado tantas vezes das questões políticas do reino. Mesmo assim, sujeitou-se a todas as armações do irmão imperador e até o salvou algumas vezes da morte certa.

Em Versailles, a luxúria era a regra. Nos salões do palácio, eram tramados e executados assassinatos, todo tipo de tramoia contra e a favor de Luís XIV. Casamentos eram arranjados como soluções geopolíticas, o que acontecia em todos os reinos à época.

O Rei almejava ser amado acima de qualquer coisa, idolatrado pelos seus súditos, mas principalmente pelas suas mulheres. “Eu sou o Estado, o escolhido por Deus”, dizia. Magoava-se profundamente quando sabia de revoltas em Paris contra seu governo e contra a nobreza encastelada em Versailles rodeada de luxos e dispêndios. Essa mágoa só ia embora quando a vingança impiedosa cumpria sua missão. E a lâmina do rei atingia nobres, plebeus, clero e qualquer um que ousasse contrariá-lo, inclusive suas amantes.

Quando ele pede para trocar o espelho do seu quarto percebe-se a vaidade e a soberba. É como aquele e aquela que projeta uma imagem de si e a contempla todos os dias. Uma crise sem precedentes acaba com os humores e promete fazer estragos se essa imagem aparece fora de foco ou deformada. Ninguém escapa à fúria decorrente.

Ao longo dos episódios, em que pese a tirania de Luís XIV, a imagem de uma pessoa insegura e infeliz se manifesta e ele tem consciência disso, o que o obriga a um autoconfinamento, a uma solidão cruel da qual não há como fugir.

Impossível assistir toda a série sem pensar nos pressupostos presentes no tempo de Luís XIV que levarão a França, no século seguinte, à guilhotina e à República. Da mesma forma, impossível não prever a queda do império Alexandrino sem suas mãos fortes e valentes.

Governo Bolsonaro é um grande e pesado Titanic

Por: Luiz Carlos de Oliveira

Fiquei bastante ansioso para ouvir o discurso de posse de Bolsonaro. O que eu esperava dessa primeira fala aos brasileiros? Que ele dissesse que o Brasil precisava esquecer a campanha eleitoral com todas as suas rusgas e fake news. Que a partir de agora tínhamos que olhar para o futuro, almejar um Brasil grande, de oportunidades para todos.

Que a oposição tivesse firmeza em sua atividade institucional para o aprimoramento da democracia, mas que visse o governo como uma instituição que desejava acertar; que fosse dado um voto de confiança ao novo governo. Que a base aliada se comportasse adequadamente, apoiando as medidas do executivo, sem esquecer, contudo, que o legislativo deve fiscalizar, propor leis, melhorar as matérias enviadas ao Congresso Nacional.

Queria ouvir do presidente eleito que ódios não teriam lugar no Brasil. O novo tempo seria de pacificação e diálogo permanente com a sociedade e as instituições democráticas. Que haveria equilíbrio nas indicações dos ministros e ministras, escolhidos pela capacidade de levar adiante todo o ideal de um Brasil mais justo, democrático e desenvolvido.

Que um novo tempo estaria sendo inaugurado. Um tempo em que os interesses dos brasileiros seriam priorizados em detrimento de países estrangeiros ou de grupos políticos e econômicos de dentro e fora do Brasil.

Que a relação com o Congresso Nacional seria levada a um outro nível; o do diálogo, da transparência e do fim do toma-lá-dá-cá.

Fiquei esperando, atento, o aceno de um líder republicano, que não veio.

Mas ainda restava uma esperança. Que o que faltou no discurso viesse na prática.

E vieram as nomeações: Damares Alves, pastora de ideias retrógradas e vacilantes, quase sempre pendurada nas goiabeiras teológicas. Ernesto Araújo, um desconhecido capacho dos Estados Unidos que se limitou a ser o ministro reserva, assumindo em seu lugar o deputado Eduardo Bolsonaro. Generais e oficiais das forças armadas, se juntaram ao vice-presidente também general num governo com uma quantidade de milicos nunca vista nem na época da ditadura.

Filhos de Bolsonaro e Olavo de Carvalho se esmeraram nas indicações e veio o colombiano Vélez Rodrigues para o MEC (Ministério da Educação) e junto com ele as trapalhadas e eternos recuos do governo, demissões, mudanças contrariadas. De proposta concreta só a da pastora Iolene Lima, Secretária Executiva do MEC, que indicada, nem assumiu o cargo depois de declarações desastradas sobre Educação baseada na bíblia.

O Ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio (PSL/MG), logo se viu enrolado em meio a denúncias de desvio de dinheiro da campanha eleitoral, o chamado laranjal do PSL. Pelo mesmo motivo, caiu o coordenador da campanha do presidente, Gustavo Bebianno e ninguém sabe quem afinal foi o responsável pelos desvios de recursos do PSL de Pernambuco, se Bebianno ou se o deputado Luciano Bivar.

Como se não bastasse as denúncias contra o PSL, vieram à tona denúncias que recaem sobre o filho-senador, Flávio Bolsonaro e seu ex-chefe de gabinete, Fabrício Queiroz, pego em operação financeira suspeita pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF). Tudo leva a crer que havia uma “rachadinha”, nome que se dá à devolução de dinheiro proveniente de salários de assessores parlamentares. Até uma assessora do então deputado Jair Bolsonaro caiu na ciranda da rachadinha.

No Congresso a base aliada parece estar à deriva, como se fosse o gigante Titanic minutos antes do choque que o levou ao fundo do mar. O Ministro Onyx Lorenzoni, também alvo de denúncias de caixa dois, não consegue desempenhar um papel decisivo de articulação no Congresso. Foi decisivo apenas na eleição da presidência do Senado. Rodrigo Maia estressou com Moro, depois ficou ainda mais bravo com a prisão do sogro, Moreira Franco; ensaiou um rompimento com o governo, mas manteve o equilíbrio.

Enquanto isso, o general Hamilton Mourão corre por fora; Olavo de Carvalho xinga pelo Twitter e Carlos Bolsonaro manda recados em nome do pai nas redes sociais.

Jair Bolsonaro continua o mesmo deputado que durante 28 anos escondeu-se nos porões da Câmara dos Deputados, saindo das sombras somente para achincalhar mulheres, negros, índios e glorificar ditadores e assassinos.

Sinceramente, eu esperava mais do atual presidente.

Luiz Carlos de Oliveira é jornalista e escritor

imagem: Wikipedia

(Texto publicado no portal Carta Campinas, em 29/03/2019)

[As opiniões nos textos assinados são de responsabilidade dos respectivos autores]

Dark Web: A Rede Sombria

Uma sensação perturbadora se apossou de mim, ao terminar os 16 episódios de Rede Sombria (Dark Net), disponível na Netflix. Diferente do que o nome sugere, a série não se limita ao conteúdo da Deep Web, embora dê uma passada naquilo que de pior existe por lá.

Equilibrada, a série aponta soluções tecnológicas que melhoram a qualidade de vida de pessoas com alguma deficiência física ou psicológica, como o caso do homem que voltou da guerra, mas seu pensamento continuou nos horrores do campo de batalha, atrapalhando a retomada de sua vida em família. Ou ainda, o caso de outro homem vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) que lhe retirou todos os movimentos e a fala. Para cada um deles a IA (Inteligência Artificial) trouxe opções para minimizar o sofrimento. A história do “homem do AVC” me pareceu bastante similar à do milionário tetraplégico retratado no filme Os Intocáveis.

Confesso que nunca tinha ouvido falar sobre hipersensibilidade a campos eletromagnéticos, outro tópico tratado no filme. Há grupos que procuram campos, cada vez mais escassos, onde não haja nenhuma rede wifi ou de celulares para fugir de dores intensas decorrentes de exposições eletromagnéticas. Nessa mesma linha, outros grupos se isolam para tratarem de vícios, como a pornografia, ou videogames.

O documentário traz ainda uma série de exemplos de homens e mulheres que se arrependeram de crimes cometidos com o apoio da Internet e que agora mudaram de lado e ajudam pessoas que ainda podem ser salvas. Um exemplo disso, um ex-skinhead que hoje faz parte de uma organização que salva pessoas de grupos que disseminam ódios pela Internet ou de seitas que arregimentam jovens, que os incentivam a abandonar suas casas em nome de uma causa obscura ou por dinheiro mesmo.

Outro exemplo, um hacker que expunha nomes e endereços de policiais em uma conta anônima do Twitter e que foi preso por erro de “principiante”. Tirou uma foto de sua noiva, publicou, mas esqueceu dos metadados, informaçõ es escondidas em imagens com localização, detalhes do equipamento etc.

Quando as letrinhas começaram a subir fiquei pensando se eu tinha band-aid em casa para colocar na câmera do meu computador. Também fiquei tentado a sair de todas as redes sociais, procurar algum refúgio, um campo aberto na natureza. Desligar-se totalmente…

imagem: Abstract vector created by macrovector

Glock: a arma que virou sonho de consumo

Fico aqui pensando se já não tenho uma ideia formada sobre posse de armas; esse debate que se tornou tão quente após as tragédias de Suzano e da Nova Zelândia. É possível que sim e, sendo assim, o que vai escrito pode tentar te convencer que o que eu penso a respeito é o que é certo. Se eu fosse você leria o restante do texto meio desconfiado.

Eu defendo o direito de posse de arma em casa, assim como defendo o direito das mulheres decidirem a respeito do aborto. Como em todo debate, pode haver controvérsias e admito, as há em demasia.

De maneira geral a nossa imprensa, que dita quais os temas serão debatidos no Brasil, já tem um lado bem definido: é contra a posse legal de armas, da mesma forma que patrocina a Reforma da Previdência com entusiasmo de torcedor fanático. Com isso, a cobertura fica prejudicada.

Imagem: reprodução

No cinema, como não poderia ser diferente, o debate também acontece. O documentário Glock, violento objeto de desejo (Weapon of Choice), disponível na Netflix é um exemplo de abordagem mais equilibrada que, por exemplo, Tiros em Columbine (2002), de Michael Moore.

A Glock é uma arma simples de montar e desmontar, leve e extremamente confiável. Pelo menos é o que afirmam os especialistas, bandidos e demais entrevistados no documentário de Fritz Ofner. Mais que isso, é um objeto de culto, de amor e de união indissolúvel. Chega a ser uma relação meio doentia…

Mas aquilo que poderia ser uma reverência ao produto do engenheiro austríaco Gaston Glock aos poucos foi se transformando em um grande escândalo internacional. Aspectos sombrios da empresa foram revelados: discrição suspeita do proprietário da marca, crimes fiscais, mortes, prisões, roubos, corrupção, atentados. Essa aura soturna se descortina, seja em Chicago(EUA), no Iraque, ou mesmo em Deutsch Wagram, na Áustria, onde fica a sede da Glock.

O filme revela ainda que a grande virada da empresa aconteceu na década de 1980 quando conseguiu chegar no mercado norte-americano abastecendo tanto as forças policiais como as gangues de Chicago. Entre os entrevistados, um ex-soldado que retirou Saddam Russein do buraco em que estava escondido, no Iraque, demonstra certa desilusão e até um arrependimento. A arma pessoal do ex-ditador iraquiano era uma Glock que foi levada para os Estados Unidos junto com os demais pertences de Saddam.

O deslumbramento parece afetar também as forças policiais do Estado de São Paulo que está trocando a brasileira Taurus pela Glock.

Finalmente, afirmar que videogames são os responsáveis pelos massacres me parece um equívoco. Dizer que professores armados conteriam os bandidos é puro oportunismo. Argumentar que a culpa é da flexibilização da posse de armas e que a medida aumentará o número das tragédias é fatalismo de uma esquerda acuada e insegura.

Artigo publicado no portal Aurora News

A Universidade para todos

Há 20 anos não andava pelos corredores da Universidade Católica de Campinas. Embora vazios, meus pensamentos lotaram cada vão da Faculdade de Comunicação e me levaram de volta aos tempos de estudante tardio. Passando pelas salas pude ouvir as marteladas secas das Remingtons e Olivettis nas aulas de textos jornalísticos; as luzes avermelhadas do laboratório de fotografia em PB (preto e branco) invadiram meus olhos. As salas tinham tamanhos distintos. Em uma delas, talvez a maior, havia grandes mesas ocupadas por futuros arquitetos de jornais impressos (ou não) para o aprendizado de diagramação, utilizando-se de réguas e outros instrumentos de medidas, papéis e canetas, em uma época que aplicativos para editoração eletrônica (DTP) já existiam há pelo menos 10 anos. Antes das aulas práticas, todos deviam ler o livro de Rafael Souza Silva (Diagramação, o planejamento visual gráfico na comunicação impressa).

No andar de cima, ficavam o estúdio de televisão e de rádio, além das ilhas de edição. Descendo as escadas, à esquerda, era o laboratório de informática e à direita a cantina que ficava bem junto ao DCE (Diretório Estudantil) onde funcionava uma rádio comunitária bastante atuante. Ainda no térreo, à esquerda, o teatro para aulas de expressão oral de onde se podia ouvir os motores dos carros e ônibus que chegavam e que iam embora. E o vento soprava, castigando, cortando…

Grande parte dos professores, se não todos, dividia o seu tempo entre a docência e o trabalho nas redações de grandes jornais e grandes emissoras de rádio e televisão. A faculdade formava para o mercado de trabalho, mas sempre com a preocupação de introduzir a Ética, a Filosofia e a Religião em todos os cursos. As aulas aos sábados: Antropologia Teológica. Da sala utilizada podia-se alcançar a pequena Capela que oferecia um espaço sagrado para o encontro com o Divino e também missas regulares pelo menos uma vez por semana. “A Vida na Verdade: a poética política de Vaclav Ravel”, do padre José Antonio Trasferetti, era a prova viva da esperança que nasce em terra árida, recalcitrante. 

Nem todos os alunos estavam na faculdade pensando apenas no mercado de trabalho. Era comum ouvirmos dos professores que o mercado era cruel, mas que era possível um embate, agir nas brechas do poder para garantir uma sociedade plural, justa e solidária.

Os professores da resistência mostravam um mundo diferente, mas nas aulas práticas o que tínhamos era a imitação grosseira do modus operandi que aprisiona as almas diletantes, que impulsiona o ciclo vicioso escravocrata dominado pela Igreja e pelo Estado.

Longe 20 anos, é possível verificaras diferenças entre o que propunha a faculdade e em que, de fato, nos transformamos.A faculdade é vitoriosa, a sociedade é vitoriosa, a Igreja e o Estado estão felizes. 

Na colação de grau que participo, o antigo prevalece no cerimonial requintado. Pela primeira vez, soube que a faculdade tinha um hino.Homenagens, piadas internas e declarações de amor institucional dão o tom celebrativo, embalado por canções de língua inglesa que ninguém dá atenção por causa da música chiclete apresentada ao vivo por um violinista (Despacito). 

Estamos em uma colação de grau de uma escola de Comunicação que cresceu até o ponto de se tornar um Centro de Linguagens, na semana de morte do jornalista Ricardo Eugênio Boechat. O Ministério da Educação acaba de declarar a morte das faculdades “para quem precisa contribuir com o mercado de trabalho” e a volta daeducação moral e cívica para que os brasileiros reconheçam “os verdadeiros heróis do Brasil”.

As palavras do Ministro colombiano ainda repercutem: “A universidade não é para todos”, somente para os intelectuais; os brasileiros,viajando, “são canibais, roubam os hotéis”. Apesar da gravidade do momento e das declarações, nenhuma palavra a respeito foi dita na cerimônia. Quem sabe, tortamente, o Ministro tenha até alguma razão.

Publicado primeiro em Carta Campinas, em 16/02/2019.

O escrevinhador

Um imenso copo d’água, na frente de olhos enormes, conhecidos e desfocados. Demorei um pouco até compreender o que estava acontecendo. Não sabia se dormia, se sonhava ou se alguém me chamava. “Ei, o que houve?”, disse Aurora. Não sabia ainda a resposta. Tinha as roupas ensopadas e uma ansiedade que fez a pressão arterial disparar. “Foi um pesadelo, acho”, disse, ao mesmo tempo que aceitava a água e me levantava. Desci as escadas e fui me refrescar no sofá.

Era a minha avó a visitar-me em sonho. Aparecia em cima de um cavalo forte e escovado, com vestido de chita cruzado por cinturões carregados de bala. Na cintura direita, um Colt Cavalinho calibre 38. Na esquerda, uma Luger 9mm, além de uma afiada peixeira de palmo e meio de comprimento. Nas costas, o rifle de combate. No “borná” pendurado, produtos de beleza e uma garrafa de cachaça. Trazia ainda, em bolsas de couro, apetrechos para costura. Duas tranças apertadas e bem feitas, desciam-lhe, roçando as orelhas.

Ela estava, ora sozinha, ora acompanhada. Diversos cavalos e cavaleiros, com vestimentas e armamento parecidos, figuravam na retaguarda e sumiam. Quando sumiam, restava apenas um cavalo e um cavalheiro mais junto dela; vaidoso, de chapéu de palha, só fazia era cuidar dela.

As imagens do fundo se moviam e se alteravam como se passadas em um telão de cinema. Foquei em uma cena que mostrava uma casa pegando fogo e um furdunço danado. Afastando um pouco, era possível notar duas meninas que disparavam para longe do fogaréu. Uma delas se perdia na mata. A outra, sozinha, sentava-se em um tronco de árvore aos prantos, com as pequenas mãos cravadas na terra. O choro se apressava em acabar e começava daí a desenhar coisas incompreensíveis no chão. Diante da tragédia ela tinha um momento precioso para brincar e ser feliz, até que se lembrava do acontecido e voltava a chorar. “É Mariinha, tua mãe, viste menino? A que se perdeu é tua tia. Demoramos cinco dias para encontrá-la naquele mei de mato que só Deus. A valença foi um empregado da fazenda e os vizinhos todos que esquadrinharam o matagal que nem era tão alto. De vez em quando, meu marido, teu avô, ⏤e olhava com carinho para o homem de chapéu ao seu lado ⏤, dava um pipoco pra cima para assustar as onças. Perdimos tudo e descorçoamos. Resolvemos ir pra Sum Paulo.”

A próxima sequência de imagem era de uma mulher arrastada pelo cabelo e que, apesar do jeito esquisito, aceitava o seu destino. Ela fora retirada da sua tribo e levada para outra aldeia distante onde passaria a viver com o seu novo marido até os fins dos seus dias. “Essa era minha mãe, tua bisavó. Com ela aprendi tudo o que sei de rezas. Desde as que curam até as que abrem e fecham o corpo contra qualquer mal, seja de punhal assassino, seja de bala perdida ou endereçada”. 

“Mas, apois, vamu acabar com a prosa e ligeiro dizer a que vim”, continuou. “Trago aqui um escapulário que passa de mãe para filha. Dentro dele, apertadinho, em papel feito sanfona, A Oração, Salve Rainha, que protege essa família desde tempos imemoriais. Mariinha tem o seu, que não pode ser doado, vendido ou jogado fora. Em todas as tuas quedas, ela valeu-se da santinha, teve o joelho sangrado por tanto amor que lhe tem. Ela deposita em tu toda a esperança. Te ama como a ninguém nessa vida. Já lhe perdoou os pecados. Perdoa, tu, os dela também. Quero pedir-lhe um grande favor. Vai, logo, menino, escreve tudo. Seja o nosso escrevinhador.”

“Se me permite, enquanto me arretiro, deixo uns versos pra tu. Guarde em teu coração. Deus te abençõe, meu netinho, filho de Mariinha, minha menina franzina, coração de leoa, fonte de fortaleza e orgulho para todos nós:

Atentai ó meu netinho

nos conselho que lá vai

não se zangue com Maria,

compreenda o teu pai.

O teu pai foi cantador,

o mais branco que se viu

empunhava a viola

deixando o mundo no cio.

Violeiro da porteira,

bem conhecido ficou

no repique da viola

tua mãe arrebatou.

O café que era a mina

a crise o consumiu

vamo embora, meu marido

Mariinha decidiu.

Foi embora sem um nada

com os quatro filhos seus

arregaçou as mangas

na fé em Jesus e Deus.

Se instalou naquele sítio

pra favela não iria

enfrentou as tempestades

é porreta essa Maria.

Teve altos, teve baixos

mas a vitória alcançou

a maior Graça da vida,

vê-lo um dia, escritor.

imagem: Benjamin Abrahão Botto