A Livraria

A cinéfila de casa, após uma navegada pela Netflix me convidou: “Vamos ver A Livraria?” De inicio, achei o filme um pouco parado, apesar das belas paisagens da pequena cidade litorânea da Inglaterra (Hardborough). O enredo é bastante simples. Uma mulher viúva, apaixonada por livros, resolve abrir uma livraria em uma cidade onde há apenas um leitor contumaz, que daria a sua vida para defender a única livraria da cidade. Todos os demais habitantes parecem formar um conluio contra a livraria.

A outra exceção é a narradora. Christine trabalha na livraria e confessa odiar leituras, preferindo matemática e outras matérias exatas. O ensino na cidade, como podemos comprovar depois, é, para dizer o mínimo, bastante limitado. Christine, um dia, vai mudar de opinião a respeito de leituras.

A paixão da nossa viúva pela leitura contagia o lugarejo, para o bem e para o mal. Uma das cenas principais da trama acontece quando Florence (proprietária da livraria) encomenda 250 unidades do livro Lolita (Nabokov). Outro livro que nos orienta a entender toda a trama é Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), indicado por ela ao primeiro e mais assíduo cliente, Edmund Brundish. Ambos livros são novidades na década de 1960, período onde se passa toda a estória.

Como Florence, que ao terminar algum livro ficava pensando e meditando sobre ele durante um certo tempo, à beira-mar, nós também, terminamos o filme e ficamos falando sobre ele. A minha cinéfila observou bem toda a manipulação, mentiras e tramoias a que se viu envolvida Florence; uma pessoa de coração generoso e uma mulher de muita coragem. Enquanto eu me preocupei em relacionar as obras literárias mostradas no filme, minha cinéfila focou nas traições sórdidas cujo objetivo evidente era dar fim à livraria em favor de um Centro de Artes.

Primeiro foquei em Lolita, tentando encontrar algo de importante entre a obra e o filme. Mas, a perspicácia da minha cinéfila foi decisiva. Foi apenas uma trama para escandalizar a sociedade local e dar vazão ao desejo da vilã Violet Gamart. Fahrenheit 451, no entanto, é uma ligação direta. Faz todo sentido.

É um filme interessante, baseado em um livro homônimo da britânica Penelope Fitzgerald(1978). Não li o livro, por isso não posso atestar a fidelidade entre as obras, nem quero. Para mim são coisas diferentes, sempre.

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Encruzilhada

Dilma Roussef, impedida de seguir conduzindo o país, por vários motivos que não cabem nessa reflexão, entre os quais uma crise institucional sem precedentes, um ódio crescente pela classe política, impulsionado por programas e jornalismo midiático comprometido apenas com o lucro e o poder, e por último, o interesse geopolítico que poderíamos traduzir por money, petroleum, disse:o momento requer de nós coragem”.

A frase utilizada foi retirada de um dos maiores da nossa literatura, Guimarães Rosa: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem (Grande sertão, veredas)“.

Contra Dilma, os maiores impropérios surgiram, inclusive de natureza linguística. ⏤ Quem é essa mulher que se arvora a se auto-intitular presidenta quando o correto é dizer presidente? ⏤ reclamaram líderes oposicionistas. Sobre o assunto se pronunciou a Academia Brasileira de Letras (ABL). Por meio de um artigo do ex-presidente do Brasil e imortal da ABL, José Sarney, o caso foi devidamente esclarecido. Segundo o imortal ⏤ imortal mesmo! ⏤ a palavra presidente é comum para os dois gêneros, mas não incorre em erro quem diz presidenta. Ressalta ainda, que foi uma opção política da primeira e única mulher a ocupar o Planalto pelo voto popular e soberano.

O momento, ainda requer de nós bastante coragem, do latim, coraticum, que tem o coração como radical. Ter coragem, então é agir com o coração, sem medo, isolando os perigos e violências externas, ao contrário que agir inconsequentemente.

Estamos em uma encruzilhada, como estivemos em outros momentos da nossa vida. Escolhemos o caminho errado muitas vezes, mas cá estamos nós, firmes, resolutos, tão frágeis e inseguros.

Entre abóboras e melancias

Este é o maior dilema dos incautos escritores que se obrigam ou se deleitam em deitar palavras aos borbotões ao menos uma vez por semana, ou quando o caso é grave, todos os dias.

Acordei com tempo pensando que, a partir de agora, escreveria uma vez por semana, todo sábado. O primeiro obstáculo tem a ver com o assunto, sobre o que escrever. Os trending topics são referências excelentesafinal se está a se falar de abóboras, por que cargas d’águas falar-se-á de melancias?

Abóboras são o mote das eleições deste ano. São carroças e mais carroças delas transitando pelas mídias sociais. Sempre digo que as mídias sociais são extensão da vida real. Regra geral: escreva tudo o que quiser nas mídias sociais, se for capaz de falar a mesma coisa em um estádio de futebol lotado.

São, elas, dos mais variados tipos: abóbora seca, de pescoço, jerimum, guiné, moranga, libanesa e a italiana. Certo é que todas elas não são o que parecem. São vernizes em madeira podre. Os seus produtores e disseminadores atuais são zangões, incapazes de produzir algo mais útil, acéfalos, vivem somente por uma razão: gerar o caos e causar pânico na colmeia.

A melancia, por sua vez, essa fruta deliciosa, verde por fora, vermelha por dentro, tem um caminhão de atributos que a tornam a maior aliada da saúde e do bem estar. Mas nem todos gostam. Lya Luft, por exemplo, odeia. Escreveu em Paisagem Brasileira: dor e amor pelo meus pais, que está decepcionada. Sente-se traída. Fã da meritocracia que é, não suporta a ideia de dividir a melancia com mais pessoas. É uma questão de justiça, assevera ela. Quem propagou que a melancia tem tantos atributos benéficos quando, na verdade, na opinião da escritora, não a tem, deveria pedir desculpas à nação.

O fato é que entre abóboras e melancias daqui a pouco o relógio da igreja soará. E ao soar, o jogo estará acabado. A carruagem tornar-se-á uma abóbora, o príncipe, um sapo e não restará melancia para nos hidratar e curar nossas feridas.

 

 

Serviços públicos especializados para pessoas com deficiência

“Sou sensível à essa causa, contem comigo”. As palavras do vereador Dirceu Dalben, da cidade de Sumaré e, agora deputado estadual eleito, assim que terminei a exposição sobre os serviços públicos especializados para pessoas com deficiências, no Tribuna Livre da Câmara de Vereadores, como mãe e membro da Associação Amor Azul, foram um alento.

A estratégia é levar informação sobre o nosso cotidiano aos vereadores da Região Metropolitana de Campinas (RMC), com o objetivo de sensibilizá-los para esta causa coletiva, social e de ordem pública.

A Associação Amor Azul é uma organização que oferece apoio e orientação às famílias com filhos em situação de deficiência intelectual e autistas (além de outras deficiências). No grupo, compartilhamos experiências na busca por melhoria no tratamento terapêutico e educacional dos nossos filhos.

Nutrimos sonhos de construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, não somente por meio de leis e decretos. Sonhamos com vida digna aos nossos filhos, que sejam aceitos como seres humanos com necessidades especificas, que não olhem para nossos filhos vendo somente a deficiência. Sonhamos que a sociedade entenda que deficiência é uma perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gera incapacidade para o desempenho de atividades, dentro do padrão considerado normal para o ser humano. (Definição descrita na Lei Brasileira de Inclusão – LBI). Essa “anormalidade”, descrita acima, não incapacita o indivíduo de aprender, desde que devidamente estimulado.

Ter no contexto familiar uma pessoa em situação de deficiência é fator determinante para desestrutura psicossocial. É preciso haver resiliência para proporcionar vida digna à essa pessoa. Não raro, essa vida digna só acontece após desgastantes ações judiciais. Se na família os pais forem assalariados os recursos públicos se limitam, por exemplo, ao benefício do INSS, LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), benefício assistencial garantido na Constituição Federal. Entretanto, para se conseguir o tal benefício é preciso provar situação de miserabilidade.

Além disso, cabe indagar: quais recursos terapêuticos, odontológicos o sistema público oferece para essa camada da população?

As pessoas com deficiência devem ser tratadas com igualdade e merecem as mesmas oportunidades na sociedade; sem privilégios ou paternalismo. E o Estado é quem deve assegurar a plena integração da pessoa com deficiência à sociedade.

Desde 1990, existem resoluções e conferências internacionais para implementação de políticas públicas de inclusão e acessibilidade. Em 2015, foi instituída a Lei Brasileira de Inclusão, porém a questão que tem movimentado as mães, em rodas de conversa, é a efetivação dessas leis para que pessoas com deficiência (crianças e adultos), sejam incluídas, não somente no sistema educacional, mas também no sistema de saúde e sociedade em geral.

Com base em informações do censo de 2010 do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), há no Brasil 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, sendo que 3,4 milhões são de crianças e adolescentes, na faixa de zero a quatorze anos. É imperativo ações efetivas que favoreçam a inclusão social e acesso aos bens culturais produzidos pela humanidade, considerando educação adequada ao desenvolvimento humano, segundo itens do Índice de desenvolvimento Humano (IDH).

A busca diária de várias mães é por atendimento médico e odontológico adequado, pois tratar dessas crianças ou adultos exige qualificação especifica, tal como se exige na área educacional.

É necessário o diagnóstico precoce e intervenção terapêutica a partir do diagnóstico. Não é possível colocar num mesmo espaço autistas, deficientes intelectuais, deficientes físicos, deficiente auditivo ou visual. Cada pessoa que apresenta uma dessas condições necessita de atendimento e intervenção terapêutica apropriada ao CID (Classificação Internacional de Doenças).

Por todos os motivos expostos acima é que estamos em uma empreitada para sensibilizar legisladores dos municípios da Região Metropolitana de Campinas e quem sabe, expandir essas preocupações e anseios a todo o estado de São Paulo. Não é possível limitar uma situação tão complexa a ações genuinamente paternalistas. A discussão é por políticas públicas, pela construção de uma sociedade realmente democrática e inclusiva. É isso que importa para as mães que estão em luta em favor de suas crianças com deficiências.

Elaine Cristina de Oliveira Nunes
Pedagoga e Professora da Rede Municipal de Ensino de Sumaré

Defensor de ditadura confronta defensora da ditadura

Vamos ver se entendi. Um defensor da ditadura confronta outro defensor confesso da ditadura (Rede Globo TV) e depois de minutos de silêncio, solidão e constrangimento generalizado de todos os jornalistas que participavam da entrevista contra o presidenciável [contra sim, porque os jornalistas, em geral, não respeitam nenhum entrevistado, em que pese alguns presidenciáveis não merecerem o menor respeito mesmo], uma nota lida pela Miriam Leitão, assoprada convenientemente no ponto eletrônico tenta amenizar a situação.

O final da nota dizia o seguinte: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio [à ditadura] foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais [edição do debate Color x Lula] do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

Essa nota reproduz um texto de 2013 publicado no jornal O Globo. Se não estou enganado foi lido também no Jornal Nacional pelo William Bonner. Lido com toda cerimônia e drama característicos do apresentador e editor do diário, a repercussão foi imediata. Daí em diante a Globo não seria mais golpista. Será?

O que diz a nota nos revela, contudo, que a Globo aprendera a dar golpes dentro da democracia, não precisa mais dos milicos. Ou alguém acredita que não há dedos e mãos das empresas dos Marinhos no Impedimento da Presidenta Dilma Rousseff, na prisão do presidente Lula e na decisão de não permitir que Lula sequer seja candidato?